90 Anos
A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda

Da Teoria Geral aos desafios do século XXI:
crescimento, instabilidade, desigualdade e transição climática
Em um contexto marcado por profundas transformações, como as mudanças climáticas, a financeirização, novas dinâmicas do capitalismo e avanços tecnológicos, revisitamos uma das obras mais influentes da história do pensamento econômico: A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes.
O Projeto TG90, coordenado pela AKB, propõe um espaço de debate qualificado e plural, articulando os fundamentos da teoria keynesiana com agendas contemporâneas na fronteira do conhecimento econômico, com publicações de impacto para marcar essa data tão importante. Ao longo das atividades previstas, reuniremos especialistas para discutir como as ideias de Keynes permanecem centrais para compreender os desafios do século XXI.
A noção de incerteza fundamental, desenvolvida por Keynes, segue sendo crucial para entender expectativas econômicas. A impossibilidade de antecipar o futuro de forma objetiva dialoga diretamente com abordagens recentes que incorporam comportamento não-racional, convenções e heurísticas na formação de expectativas.
A demanda efetiva, conceito central da Teoria Geral, fundamenta os debates atuais sobre a estagnação secular e os regimes de crescimento. A ideia de que o nível de atividade é determinado pela demanda agregada, e não pela oferta, permite interpretar contextos contemporâneos de baixo crescimento persistente, nos quais a insuficiência de demanda, a desigualdade e o baixo investimento limitam a expansão econômica. O papel do investimento como variável volátil e decisiva conecta-se às discussões contemporâneas sobre financeirização. A instabilidade dos mercados financeiros e a predominância de decisões de curto prazo reforçam a visão keynesiana de que o investimento é guiado por expectativas frágeis e sujeitas a mudanças abruptas.
As discussões sobre moeda e sistema financeiro, incluindo novas arquiteturas monetárias, remetem diretamente à teoria da preferência pela liquidez. Em contextos de incerteza, a demanda por liquidez permanece central para compreender os limites da política monetária e o funcionamento das economias modernas. De forma transversal, a distribuição de renda e riqueza reforça a intuição keynesiana de que diferentes propensões a consumir afetam a demanda agregada. Em contextos de elevada desigualdade, a concentração de renda pode limitar o dinamismo econômico, tornando a análise distributiva essencial para compreender o crescimento e a estabilidade.
No campo do mercado de trabalho e da desigualdade, a Teoria Geral rompe com a ideia de ajuste automático via salários. O desemprego pode persistir mesmo com flexibilidade salarial, o que se conecta às análises atuais sobre segmentação, informalidade e desigualdade como fatores que afetam diretamente a demanda agregada. As transformações tecnológicas e a digitalização dialogam com a preocupação keynesiana com o desemprego e a instabilidade. Seus efeitos macroeconômicos dependem da capacidade de gerar demanda suficiente para sustentar o crescimento e absorver a força de trabalho.
Por fim, as discussões sobre política macroeconômica retomam a defesa keynesiana da atuação ativa do Estado. Em contextos de crise, baixa demanda ou elevada incerteza, a coordenação entre políticas fiscal e monetária resgata a ideia de que o mercado, por si só, não garante o pleno emprego nem a estabilidade macroeconômica. A agenda de mudança climática pode ser interpretada à luz do papel central do investimento na teoria keynesiana. A transição para uma economia de baixo carbono exige volumes elevados de investimento sob elevada incerteza — um contexto em que a coordenação pública se torna fundamental.

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